Àlbum de figurinhas da copa

Pois é, escrever sobre os álbuns de figurinha inspirados na copa do mundo de futebol de 2010 pode soar estranho aos olhos do leitor, mas verão que nos ensina muito sobre nossa evolução (ou não), sobre o uso do tempo e do dinheiro.

No final de semana que passou fui ao interior participar do aniversário de um dos meus sobrinhos que completava 10 anos de idade. Para minha surpresa ele pediu o mesmo presente a todos os convidados, figurinhas da copa. Até aqui achei tudo interessante, deveria estar entusiasmado, um presente barato e que teria um significado importante para ele neste momento, afinal estamos a dias do inicio da Copa do Mundo.

Minha surpresa começou quando fui a banca comprar uma figurinha para meu filho poucos dias antes de saber sobre o presente de aniversário do sobrinho:

–       O Sr. tem figurinha da copa

–       Sim (respondeu o jornaleiro)

–       Quero uma por favor

–       Só uma? (perguntou)

–       Quantas vem em cada pacotinho?

–       05

–       ok (respondi)

–       Mas só um envelope?

–       (achei estranha a pergunta, fiquei meio desconfortável e respondi) ok, dois.

Meu filho ficou muito feliz, afinal nós estávamos dando um envelope por semana, como meus pais faziam comigo e meus irmãos quando éramos crianças e se tivéssemos nos comportado bem durante a semana.

No dia seguinte ao sair da escola ele encontrou um amigo e ouvi a conversa:

–       Faltam 04 figurinhas para mim (disse o amigo e eu perguntei)

–       De qual time?

–       Para completar meu álbum.

Saí curioso e em silêncio, pois lembro de terem começado juntos há menos de um mês a brincadeira.

Na saída da viagem para o interior um amigo estava comigo no carro e eu disse que precisava parar na banca para comprar o presente do meu sobrinho que havia pedido figurinhas, meu amigo perguntou:

–       Quantas vai comprar? (eu de fato ainda não sabia)

–       Uns 05 envelopes (ele gargalhou e me contou)

–       Sabe quantas figurinhas a banca perto da minha casa vende por dia? 30 mil e é uma banca pequena. Para completar um álbum custa em media R$ 220, os pais compram de 50 em 50 envelopes.

Fiquei chocado e sem entender muito, 50 envelopes com 05 figurinhas cada são 250 figurinhas numa compra e custa R$ 37,50. Adultos não costumam gastar tudo isso numa visita a banca de jornal, quiçá uma criança.

Ao chegar no interior e relatar estes pensamentos, fiquei ainda mais perplexo ao saber que existem encontros de pais em frente a algumas bancas, com relações feitas em planilhas ou cadernos, orientando as trocas que ocorrem entre adultos como num mercado, não há mais bater figurinha, negociações mais inocentes das crianças, elas apenas assistem seus pais negociando números e confrontando listas para que conquistem o maior numero de figurinhas faltantes. Álbuns, figurinhas e crianças são dispensáveis pensei.

Ontem eu tomava um café com a Marlene Ortega, Camila, Dr. Joamel todos da Universo Qualidade e com meus colegas palestrantes Prof Willian Eid Jr e Rogério Thomé, sobre o evento do próximo dia 09 de junho. Lá eu compartilhei com eles sobre as figurinhas e começamos a lembrar que nunca havíamos visto alguém completar um álbum ou mesmo um álbum completo. Algumas figurinhas valiam mais do que outras, o jogador mais importante, a figurinha brilhante ou com o símbolo do time, ou o goleiro.

Ficaram também estarrecidos quando contei que existem bancas que vendem o álbum completo.

No aniversário vi meu sobrinho olhando as figurinhas pelo verso, os números eram mais importantes do que os jogadores, preencher (quantidade e a completude) era a meta e não a curtição (qualidade) e a frustração que dava valor dos álbuns incompletos que nos levavam as trocas, negociações, paciência e o apreço a cada envelope ou figurinha conquistada.

O professor Willian relatava a falta de paciência de um dos seus filhos na montagem de um barco de brinquedo, logo me veio a memória não compartilhada ontem de outra cena na véspera do aniversário.

Eu, sem saber do pedido das figurinhas já havia comprado um boneco skatista de montar feito em madeira, com um sistema manual que permitia dar movimento ao boneco, lindo, peças impecavelmente precisas. Meus dois sobrinho de 10 e 12 anos começaram a montar, 10 minutos depois e na primeira dificuldade de entender o manual em inglês me chamaram, em mais 10 minutos eu estava sozinho montando.

Antes de se despedirem me perguntaram, quanto tempo levará para montar? Eu respondi, se nos dedicarmos bastante e juntos, acredito que até segunda feira estará pronto (era sexta-feira), então ouvi:

–       Nossa, tudo isso?

Difícil avaliar se há ganhos ou perdas ou o que a velocidade trás, porém montar um álbum de figurinhas com a única finalidade de ter ele preenchido e o mais rápido possível, para mim explica o álbum pronto sendo vendido pelo jornaleiro, a resposta ou solução a ansiedade e a dificuldade de frustração que estamos vivendo.

Até dia 09!

Fabiano Calil, CFP

6 ideias sobre “Àlbum de figurinhas da copa

  1. Bruno

    Tem muito dos pais também transmitirem suas frustrações através do filho vencedor. É Difícil hoje em dia ver a pureza e inocência nas crianças.

  2. Adriana Carnaval

    Adorei!
    Meu pai também comprava as figurinhas p/ que eu e minha irmã montássemos o álbum mas não era assim em grandes quantidades como realmente está se fazendo hoje.
    Um amigo meu do trabalho disse que o próprio filho pediu que comprasse o álbum porque todos na escola tinham só ele não, quando ele foi comprar figurinhas comprou poucas e o menino também disse que todos os amigos tinham várias…
    Assim estamos hoje…

  3. APSimoes

    Quanto custa uma cerveja?Ou uma carteira de cigarro?Não tenho a menor ideia!Existe tanta coisa fútil que compramos sem pensar na soma dela no final do mês!E pra tristeza de muitos e alegria de outros,durante muito tempo!

  4. Rosangela Silva

    Poxa, Fabiano… o seu texto me fez pensar e viajar no tempo! Eu também adorava colecionar figurinhas. Completar o álbum era tão mais difícil que hoje em dia… o gostoso era ir às bancas e comprar um envelope, chegar em casa e ver se as figurinhas eram novas ou se havia alguma repetida… então eu corria para alguma amiguinha e tentava negociar uma troca… Eu realmente não tinha pressa, sabia qual era o meu objetivo, mas podia esperar. Afinal, viver não é uma estação de chegada, mas um modo de viajar. Acho que podemos fazer um link com o livro de Eduardo Giannetti: O valor do amanhã. beijos e parabéns pelo texto.

  5. Lucas

    Oi, eu tenho 14 anos e adoro colecionar figurinhas da copa, mas o que eu mais me indentifico eh quando voce fala que hoje em dia os pais compram 50 pacotinhos para os filhos, felizmente eu tenho conciencia de que eh um absurdo gastar quase 40 reais de uma vez em figurinhas. Eu gosto eh de comprar 8 pacotinhos no maximo por semana, o legal eh voce batalhar para conseguir completar o seu album, e nao comprar o album completo de uma vez ou comprar 50, 80 pacotinhos como fazem meus primos e seus pais.
    Adorei o seu texto, parabens!

  6. Fabiano Calil Autor do post

    Lucas, fico feliz por duas razões a primeira por saber que alguém da sua idade pode aproveitar algo neste blog e a segunda por perceber consciência e reflexão.
    Sabe que ouvi do filho de uma amiga que tem 8 anos, indignado com a mãe que comprava um envelope por vez “você sabia que a copa começará em uma semana?”, na cabeça dele o envelope deveria estar completo antes.
    Domingo passado fui com meu filho realizar trocas de figurinhas numa praça e pude ver o entusiasmo das crianças e a ansiedade dos pais, mas a troca do que já se tem por algo que ainda não tem é algo muito antigo, neste evento houveram muito mais figurinhas “válidas” do que 100 envelopes ofereceriam. Ainda assim ouvi uma frase do meu filho “pai, não quero trocar todas, senão como vou trocar com meus amigos?” a troca pode continuar, ainda que a copa esteja no meio ou terminada.

    Obrigado Lucas.

    Um abraço,

    Fabiano

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