Vende-se um amigo

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Rio de Janeiro, 23 de novembro de 2009.


Era dia de sol, sabe aquele dia de verão do Rio de Janeiro, Carlos Alberto, analista financeiro, 32 anos, solteiro, estava vendo as modas no shopping center, dando um rolé. Parecia uma cena do filme a fantástica fábrica de chocolate…tudo muito bonito …arrumado…colorido…dava até para sentir o gosto das vitrines, praça de alimentação lotada, fila de cinema.  Se não falha a memória estava exibindo no cinema o filme o Show de Truman.

Era uma viagem fantástica algo do tipo de Alice no País do Shopping Center, com um coelhinho apressado dizendo: Compre!!! Tudo dançava em sua mente: o jogo de jantar para a mamãe, o presente do aniversário do amigo, os óculos de sol para usar num feriadão desses com galera. Tudo era possível, acessível, aceitava-se cartão de crédito, cheque, promoções de 10 x sem juros.

De repente, ela olhou para ele!!!  Ele concentrou seus olhos nela…Era chic, moderna, estava arrumada, apresentável, superdescolada, daquele tipo que gostaríamos de nos apresentar para todos os amigos…

Não era uma camisa. Era A Camisa!!! Foi amor à primeira vista…afinal tanto trabalho deveria ser recompensado. Foi um encontro marcado.

Pegou o cartão de crédito, super feliz com aquela aquisição. Ora, que mal faria, pois pagaria depois. E saiu do shopping com tudo que queria e um pouco mais. Vendedores estavam felizes afinal sua comissão estava garantida com a venda e consumidor também. Realmente parecia um clima de love’s in the air.

Paramos e pensamos: O que podemos verificar com esta estória que é bem comum?

Vivemos em uma sociedade capitalista de meritocrática onde muitas das vezes as pessoas estão não acostumadas a planejar e seu intuito principal é exibir riqueza, onde consumir configura um exercício de construção de um status social, ou satisfação de um prazer. É o ethos burguês enraizado na sociedade capitalista.

Você pode estar pensando: Que problema há? …Era apenas uma camisa. Isso está parecendo discurso marxista ou de esquerda radical. Esse cara deve ser um velho chato que não sabe desfrutar de um momento de prazer.

Digamos que seja por aí. Pergunto: quantas horas de trabalho o consumo desta camisa representaria na vida de nosso personagem. Seria nestes termos interessante? Vejamos:

CARLOS ALBERTO E A CAMISA
Valor da Camisa

R$       80,00

Salário Mensal

R$  3.500,00

Salário Hora

R$       15,91

Relação Camisa/Trabalho

5,03 h

Horas de Sono

8,00h

Horas no Trânsito

2,00h

Dia normal em Horas

24,00h

Horas Restante

8,97h

ASSALARIADO

Valor da Camisa

R$       80,00

Salário Mensal

R$     465,00

Salário Hora

R$         2,11

Relação Camisa/Trabalho

37,85h

Horas de Sono

8,00h

Horas no Trânsito

2,00h

Dia normal em Horas

24,00h

Horas Restante

(23,85)h

É interessante que um cálculo já nos revela a questão. Estaria, verdadeiramente, o nosso amigo disposto a doar 5,03 h de trabalho para adquirir mais uma peça da moda que ele não havia planejado comprar? E o assalariado coitado estaria no cheque especial das horas!!!

Realmente o problema não era a camisa, mas Carlos Alberto vendeu um grande amigo…a razão.

Sabemos que os desejos são ilimitados, porém temos uma restrição orçamentária. A satisfação (se pudéssemos quantificar), ou melhor, o acréscimo marginal do nível de satisfação não poderá crescerá indefinidamente. Na verdade muitas dessas coisas são vaidades e não dão sentido à vida. Podemos perguntar aos nossos contemporâneos cujas rendas parecem ser superiores a nossos avós, bisavós se tal posição significou níveis maiores de felicidade ou contentamento? Como podemos saber que gota d’ água fará transbordar o copo?

Um homem vencedor é um homem sereno.

O planejamento financeiro consciente é uma ferramenta que buscará otimizar esse processo, não que tenha um fim em si mesmo, porém, ajudará a mostrar as pessoas quem elas são e o que elas desejam ser.

Busque autoconhecimento, ouça opinões, saia do lugar que limita a visão. Se não sabe a gota que faz transbordar o copo, pelo menos pode ver que está próximo do limite. A sua decisão por conquista afetará seu cônjuge , sua família, seu trabalho, sua vida.

Pense nisso.

Marcos Jardim é Economista, Perito e um grande Amigo!

4 ideias sobre “Vende-se um amigo

  1. hotmar

    Excelente artigo, Fabiano!

    Esse post acrescentou uma idéia totalmente original, que eu não tinha visto antes em lugar algum: a relação entre o custo do bem e a quantidade de horas de trabalho necessárias para adquiri-lo. O meu processo de educação financeira avançou vários degraus hoje.

    Vou refletir sobre seus ensinamentos e incorporá-los na minha própria jornada rumo à educação financeira. A matemática é boa justamente por isso: os números são “frios”, e nos fazem despertar sobre vários aspectos de nossas vidas que antes achávamos que não tivessem relação: trabalho/salário/compra/custo/valor/satisfação/sonhos.

    Obrigado! 😀

    É isso aí!
    Um grande abraço, e que Deus lhes abençoe!

  2. Francisca Alvanira

    Assiti hoje sua apresentação na TV achei muito interssante sou uma individada nata ganho 1.400 (um mil e quatrocentos reais) e não sei administrar, todos meses fico devendo cheque especial. No mes de dezembro parcelei o cartão mas fiquei devendo cheque especial preciso de sair dessa roubada e esta dificil. Estou comprando agora só o necessário.

    Obrigada Francisca

  3. Jane Storck

    Achei muito boa esse tipo de explicação, na hora que eu for comprar alguma coisa, vou tentar colocar isto em pratica.
    Obrigada, o brasil precisa cada vez mais de gente inteligente e competente como voçê.

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